'Registrar': um museu de nós mesmos, uma carta de amor
ensaios sobre recordação, esquecimento e memória
Em algum lugar li a ideia de que a sombra é como o primo distante e desafortunado do espelho. Quem sabe com o ato de viver e o de lembrar seja algo parecido.
Enquanto faço e desfaço malas, mudo meus planos, faço escolhas das quais me arrependo e tomo chás gelados, penso que o medo de ‘esquecer’ me assola desde que aprendi a amarrar os cadarços. Medo de esquecer o cheiro do verão assim que o outono chegar, medo de esquecer as nuances castanhas nos olhos verdes da minha avó, medo de esquecer a gentileza de meu pai, medo de esquecer o porquê eu sou como sou, o sabor da torta de bolacha que comia quando criança e da emoção de comprar um DVD e assisti-lo e descobrir que não foi gravado no cinema.
E para além desse medo de esquecer, o que o acompanha é a noção de que talvez (certamente) em algum momento eu seja esquecida.
E tenho certeza de que você, vivendo um momento específico pensou que, assim que acabar, ele virará uma boa memória. Acredito que essa consciência, como uma moeda, tenha 2 faces; a primeira é a de que você se conhece o suficiente para saber que esse momento te marcará, os porquês disso e a maravilhosa sensação de ter a certeza de que está vivendo algo bom. Mas já a outra face, é mais sorrateira e geralmente não nos damos conta dela inicialmente. Esta implica na noção de que não estamos vivendo completamente no presente, uma pequeníssima parcela de você já está no futuro, no seu quarto, sozinha no meio da noite, lembrando e tentando recuperar pelo menos uma pitada do sabor que este dito momento em outrora lhe trouxe.
Por isso deposito tanta esperança no ato de registrar – escrevo para me lembrar como me senti e fotografo para me lembrar como foi. Comecei a ter o hábito de ter journals, sketchbooks e diários desde muito nova, coleciono rabiscos, notas sem sentido e algumas fotos de álbuns antigos. Desse modo, sinto que passo a ver o Tempo (Tempo como entidade) um pouco mais como aliado e velho amigo do que como este ser imponente que rouba minhas horas. Defendo essa prática com unhas e dentes pois a exerço honrando minha eu do passado e a do futuro. Pensar e ler e sentir e lembrar quem fomos e o porquê fomos é um exercício que só tem a acrescentar nas noções e perspectivas que temos sobre nosso mundo particular e o nosso mundo exterior.
Paralelamente, penso também que é uma verdadeira honra e privilégio sentir falta e nostalgia pelas próprias memórias - quer dizer que você viveu boas coisas pelas quais você foi moldado e esculpido.
Por fim, proponho que a intenção de registrar possa ser feita com uma pitada a mais de intencionalidade, como uma carta de amor a nós do futuro. Quando começarem a aparecer mais velas em nossos bolos de aniversário, quando tivermos colecionado um álbum de vivências e aprendizados e não tivermos mais tanta energia para lembrar das pequenas coisas do agora, que então possamos recordar através de nós mesmos (os nós do aqui.)





A coisa mais bonita que li hoje,registra memórias com intenção transforma isso em verdadeiros tesouros para o futuro:)
Lindamente maravilhoso ♥︎